‘A tendência natural do poder é controlar a imprensa’, diz jornalista espanhol


David Jiménez foi diretor do jornal El Mundo durante um ano e relata em livro as pressões políticas e econômicas que viveu
Por Catarina Carvalho na Folha

David Jiménez é a sensação editorial na Espanha. Jornalista, escreveu um livro sobre o seu ano, terrível, como diretor do jornal El Mundo. O que conta, com toda a transparência, chocou a sociedade espanhola. Expôs a bolha que se formou entre o poder político, os interesses econômicos e a aristocracia do jornalismo espanhol. As pressões de fora e de dentro, com uma administração habituada ao status quo e preocupada com a sobrevivência do negócio. As atividades de jornalistas pouco consentâneas com os valores do jornalismo e as guerras de personalidades numa redação resistente à mudança do papel para o online.

O livro chama-se simplesmente El Director e já vai para sua quarta edição. David Jiménez foi jornalista do El Mundo toda a vida, e na maior parte dela foi correspondente no exterior, cobrindo guerras e desastres naturais, sobretudo na Ásia. Depois de ter sido bolsista da Fundação Nieman, em Harvard, a administração da RCS —dona do El Mundo— convidou-o para dirigir o jornal. Chegou à redação, como conta no livro, sem um único contato de um político ou de um empresário na agenda. Mas essa independência, que achava benéfica, acabou por tramá-lo, conta. Apanhado em guerras políticas, numa Espanha em crise de polarização e com novos partidos, e problemas econômicos, teve de batalhar pela independência do jornal que todos achavam dever escolher “um lado” e “defender os seus”. Encruzilhadas éticas de um mundo em mudança permanente como é o dos media. Foi diretor do El Mundo durante um ano. Quando descreve o que aconteceu, no seu livro, parece um inferno. E não deveria ter acontecido assim. O que é que correu tão mal? Bem, eu chego a diretor do El Mundo depois de quase 20 anos como correspondente no exterior. Quando comecei era um jovem com 26 ou 27 anos e a imprensa na Espanha ainda vivia um boom, os jornais ganhavam muito dinheiro. Quando volto como diretor encontro a imprensa arruinada. As redações tinham despedido metade dos seus jornalistas. E o poder, tanto econômico como político, percebeu a fragilidade da imprensa e aproveitou a situação difícil para controlar ainda mais os meios de comunicação. Não estava preparado para isso, não sabia que era assim? Depois de estar vinte anos como correspondente preocupado com a reportagem que ia fazer, e como enviá-la para o jornal, não tinha nenhuma experiência da gestão de uma redação nem de me mover nos gabinetes e nos corredores do poder. Não tinha essa experiência e creio que paguei por isso. O lugar de diretor do El Mundo na Espanha é muito poderoso, com muita influência, e temos de nos saber movimentar junto do poder. No primeiro dia telefona-nos o rei, o presidente do governo, todos os ministros e grandes empresários. Toda a gente quer conhecer-nos, ser nosso amigo, ter influência. Eu tinha estado a cobrir guerras, revoluções, tsunamis… tinha vivido num mundo muito diferente. Não soube movimentar-me naquele mundo. Num momento com muitas dificuldades, em que a Espanha estava a viver uma grande mudança, em que surgiam novos partidos políticos como o Podemos e o Ciudadanos, e o establishment tinha medo de perder a sua posição. O que todos pediam quando ligavam ao diretor era que eu os ajudasse. E eu respondi-lhes que não, que ia fazer um jornal independente. Aí começou uma batalha para controlar o jornal. E quando veem que não o podem fazer, tentam eliminar-me como diretor. Mas se não tinha essa experiência, por que aceitou ser diretor? Por que achava que sem ter essa experiência era melhor, por ser mais independente? Entrei como estagiário no El Mundo e trabalhei 20 anos para o jornal, sentia um vínculo emocional. Aquilo para mim não era só um trabalho, era um lugar muito especial que me havia dado grandes oportunidades. Naquele momento pedem-me ajuda porque acreditam que eu seja a pessoa que os pode ajudar a sair da crise e seria impossível dizer-lhes que não. Apesar de saber que iria ser muito difícil, também pensava que tinha algo de importante para oferecer. Além de que me sentia livre para tomar decisões, não tinha compromissos nem dentro nem fora da redação. Numa parte do livro digo que não devia nenhum favor a ninguém e que ninguém me devia a mim. Pensei que isso era uma grande vantagem para fazer uma transformação radical no jornal.

E poderia ter sido? Sim, poderia ter sido. O que se passa é que notei que os proprietários do jornal não tinham nenhuma intenção de fazer um jornal diferente. O que queriam era trazer alguém de fora que não tivesse contatos com a política e com o mundo das empresas. Creio que eles pensaram que eu seria muito manejável, que poderiam fazer um pouco o que quisessem. Quando a própria empresa não quer fazer um jornal independente tudo se torna muito difícil. No livro diz que “o poder econômico protegia o poder político, o poder político protegia o poder econômico e a imprensa protegia o poder econômico”. Mas no final, na imprensa é um problema econômico ou não? O maior problema é o econômico porque a imprensa não pode ser livre enquanto depende de favores de grandes empresas ou de uma licença de rádio ou de televisão que dá o governo, ou da publicidade institucional. Quando os jornais como o El Mundo vendiam, por exemplo, 350 mil exemplares, podiam depender em grande parte dos leitores. Mas quando as vendas caem 70%, passamos a depender de favores, precisamente daqueles que deveríamos vigiar. Aí acabamos por nos converter numa parte do sistema. Em vez de vigiar o sistema, tornamo-nos parte dele para sobrevivermos. Perdemos completamente a nossa essência, o espírito do jornalismo. Quais foram as pressões mais poderosas, as econômicas ou as políticas? Para mim foi muito mais difícil fazer frente ao poder econômico. Estive como correspondente na Bolívia, no regime chinês, na Coreia do Norte, na Birmânia, fui detido em vários sítios e estava acostumado à pressão política. Em contrapartida, quando o nosso jornal tem dificuldades para pagar os salários aos seus jornalistas, quando temos problemas até para enviar os jornalistas para fazerem a cobertura de qualquer coisa porque não há dinheiro, é muito difícil. Se uma grande empresa como a Telefónica, por exemplo, nos diz que se publicamos uma determinada história nos retira a publicidade, deixa-nos numa situação muito difícil. Como diretor tenho de decidir entre fazer o que é correto, que é publicar essa história, e a possibilidade de que fazendo o que está certo possa pôr em risco a viabilidade do jornal. O poder econômico, em momentos de crise como a que atravessava e continua a atravessar a imprensa espanhola, pode decidir que jornais sobrevivem e que jornais morrem. Exceto os jornais novos, digitais, por exemplo. A situação mudou um pouco com eles. Acredita que é esta a solução: ter jornais com espírito startup? Na Espanha, nestes anos de crise foram tantos os jornalistas despedidos que estes criaram jornais digitais. Cerca de 400 nos últimos dez anos. Na realidade, são muito poucos os que vingaram. Realço dois: El Confidencial e El Diario. Estes dois conseguiram criar modelos de sucesso. Gosto do modelo econômico do El Diario porque baseia-se nas assinaturas. Tem mais de 30 mil assinantes e isso dá uma certa independência. Ou não… No seu livro relata que o ministro do Interior do PP lhe disse que não são tempos para a neutralidade, mas para que o jornalismo tome posição. Isto é interessante porque hoje vemos muitos jornais que tomam partido. E, em Espanha, o El Diario é um deles, muito à esquerda, próximo do Podemos. Aí a objetividade perde-se um pouco porque eles precisam de servir os interesses dos seus leitores. Não acha que isso pode ser um risco? Sim. Por isso fui muito concreto ao dizer que gostava do modelo de negócio do El Diario. É verdade que eles conseguiram muitos assinantes também tomando posições. Defendem os valores da esquerda e a mim não é esse jornalismo que me agrada. Eu acredito que sim, que são tempos para a neutralidade e para a independência do jornalismo. Eu gostaria que os leitores de Espanha assinassem os jornais pela sua qualidade, pela sua independência, pela sua coragem. A Espanha é um país polarizado, onde tudo está dividido em trincheiras, ainda não superamos a fratura da Guerra Civil, onde os meios de comunicação têm de tomar partido por um ou por outro lado. Quando eu cheguei à direção do El Mundo, uma das minhas intenções, talvez um pouco louca, era a de fazer um jornal absolutamente independente que não tomasse partido por nenhum dos lados.

E ninguém compreendeu isso… O Podemos pensava que o jornal estava com o PSOE e o PSOE pensava que estava com o Podemos, o PP pensava que estava com o Ciudadanos. E isso diz muito sobre o que é a imprensa em Espanha… Claro que a posição mais cômoda em Espanha para um jornalista é tomar partido e estar numa trincheira. Assim tem um público fiel, sabe que vai ter fontes de informação. Quando se toma a posição incômoda de ficar no meio, de se declarar independente, o que acontece é que todos nos veem como seus inimigos, os da esquerda e os da direita. Creio que é um caminho mais difícil, mas a longo prazo, se apostarmos nesse caminho, vamos ganhar credibilidade e, no final, vamos seguir em frente. Despediram-me no período de um ano, período em que tive de construir confiança e uma marca. Acredita mesmo que existe esse caminho do meio? Sim, acredito, precisamente porque toda a gente o abandonou. Há um vazio para um jornal que queira fazer esse jornalismo. Mas é trabalhoso, não vai ser fácil, vai requerer anos de construção dessa marca de independência para que, no final, não todos os leitores mas os suficientes a apreciem. O que se passa é que os leitores em Espanha estão mal acostumados. O meu livro tem um capítulo que se chama “O leitor aborrecido”. É uma crítica também aos leitores. Os leitores que me exigiam que eu denunciasse a corrupção apenas dos outros, não a daqueles em quem votavam. É aquela coisa muito espanhola de “é verdade que roubam, mas são dos nossos… critiquemos os outros que roubam”. Fala muito sobre essa bolha da política, da elite econômica, da imprensa, mas é uma bolha que tem vindo a perder influência e também poder. Sim, mas ao mesmo tempo que perde influência, luta por manter a sua posição. Por isso temos visto em Espanha nos últimos meses que empresários pagavam a polícias corruptos por informação, jornalistas que estavam a trabalhar para o que em Espanha se conhece como as “cloacas do Estado”, os jornais. Apesar de terem perdido muita influência, continuaram a orquestrar campanhas políticas concretas e com interesses definidos. Ao mesmo tempo que vai perdendo influência, vê-se uma imprensa mais manipuladora, numa tentativa de manter o status quo dos últimos anos. Muitas dessas empresas jornalísticas são grandes empresas. Conta no livro que quando estava a fazer o processo de despedimento falou com a administração para dar um sinal de que também estava a fazer cortes. O que aconteceu foi a crise financeira. Os grandes bancos, por exemplo, e as pessoas que mais fizeram para provocar a crise foram, afinal, os que saíram mais beneficiados. A fatura acabou a ser paga por pessoas que não tiveram nada que ver com a crise. Na imprensa aconteceu a mesma coisa. Os grandes cargos diretivos tornaram-se ricos, têm planos de pensões milionários, bônus… até durante os anos da crise continuaram a enriquecer, enquanto eliminavam jornalistas das redações, comprometiam a independência dos jornais. Os que mais danos causaram à imprensa foram os que saíram mais beneficiados. Isso é apenas uma coisa espanhola ou já viu o mesmo em outros lugares do mundo? A tendência natural do poder em todo o mundo é sempre controlar a imprensa. Estou convencido de que muitos dos efeitos que descrevo em El Director ocorreram em muitos outros países. O que se passa é que em Espanha aconteceu talvez de forma mais grave. Espanha não tem uma imprensa de um país democrático, ocidental, europeu. Estas relações da imprensa com o poder fazem parte de uma certa cultura que trazemos do franquismo. São muito mais fortes do que noutros países e vai ser difícil mudar. Penso que uma das coisas boas do livro é ter gerado um debate e essa era também a minha intenção, a de começarmos a falar. Nós, os jornalistas, falamos sempre dos políticos, dos empresários ou das equipas de futebol, mas nunca falamos de nós próprios, nunca expusemos publicamente os nossos defeitos, os nossos problemas, a corrupção no nosso ofício. De certo modo, o que El Director fez foi romper uma lei do silêncio que havia na imprensa. Recebeu mais elogios ou mais críticas negativas? Muitos mais elogios. A primeira prova é o sucesso do livro, já está na quinta edição em apenas dois meses. Já vendeu 40 mil exemplares, o que é algo sem precedentes para um livro sobre jornalismo. Penso que as pessoas tinham muita vontade de que alguém contasse a verdade sobre os que estão encarregados, supostamente, de contar a verdade. As mensagens que retive de muitíssimos colegas são de apoio. É verdade que uma parte da imprensa ficou aborrecida comigo, sobretudo aquilo a que chamo a aristocracia – pessoas que estão muito bem colocadas, pessoas que têm medo de que a denúncia que faço possa afetar a sua posição. Sabia que ia ser assim, sabia que ia aborrecer alguns colegas, mas aceitei-o porque era importante, apesar disso, contar todas estas coisas e quebrar essa lei do silêncio. Também fala da reação da redação à transformação digital… O jornalismo é uma das profissões mais conservadoras que existem, muitos jornalistas esquecem-se da mudança. Os jornais fizeram-se da mesma maneira durante séculos, com pequenas alterações e, de repente, chega a internet e transforma tudo aquilo. Muita gente vê a tecnologia como uma ameaça, quando podia ter sido vista como uma oportunidade. Assim, dedicamo-nos a resistir à mudança, a tentar aguentar sem mudar o máximo de tempo que conseguirmos, e isso foi um dos grandes erros que a imprensa cometeu. Agora estamos a pagar por termos sido lentos na mudança. Quando eu estava a fazer a transformação digital, a apostar no conteúdo multimídia, a reorganizar a redação, as pessoas diziam que tinham de continuar com o papel e cuidar do papel…

Que ainda vende… Eu não digo que não há que cuidar do papel, mas a realidade é que vão ser os leitores que vão decidir onde consomem o nosso jornalismo. Nós, a única coisa que podemos fazer é dar-lhes a maior qualidade possível em todos os formatos e em todas as plataformas. Isso é muito difícil de entender porque havia muita gente na redação que pensava que apostar no digital punha em risco a sua carreira profissional. Porque tinham tido o seu sucesso no papel e pensavam que a mudança podia destruir a sua posição. Outro dos grandes erros que cometemos em Espanha há 20 anos, quando surgiu a internet, foi decidirmos dar gratuitamente todo o nosso conteúdo. É como se, de repente, o supermercado dissesse que a partir de amanhã, se formos à loja, comprarmos os produtos e levarmos para casa a conta é-nos cobrada, mas se pedirmos as coisas pela internet elas chegam-nos grátis a casa. É absurdo. Mas cometemos esse erro, e também pagamos porque o público em Espanha está acostumado a receber informação gratuita. É como se estivéssemos habituados a comprar grátis no supermercado há 20 anos e agora nos dissessem que temos de pagar. Especialmente porque o que estamos a fazer não é agora assim tão valioso porque despedimos metade da redação, portanto a qualidade é mais baixa do que aquela a que estávamos habituados. É um embuste, porque reduzimos a qualidade e agora estamos a exigir às pessoas que paguem. Ao mesmo tempo que queremos que as pessoas paguem pelo nosso jornalismo, que assinem os nossos jornais digitais, continuamos a manter os acordos com as grandes empresas que condicionam a nossa independência. Não se pode ter tudo, não se pode ser um jornal condicionado pelo poder econômico e pelo político e ao mesmo tempo pedir às pessoas que sustentem esse jornalismo. É contraditório. Na outra parte do livro conta como a sua administração era muito influente nos corredores do poder, mas pouco no que é realmente o negócio dos media. Como é que lidou com isto? Há uma frase do livro em que pergunto, parafraseando Vargas Llosa, quando é que o jornalismo se arruinou. E digo que se arruinou quando os gestores começaram a fazer de jornalistas e os jornalistas começaram a fazer de gestores e administradores. Encontrei-me com donos e com administradores para quem era igual estar no negócio da imprensa ou a vender máquinas de lavar ou automóveis. Eles não viam nem a responsabilidade social do jornalismo nem a sua importância como serviço público. Conheci pessoas que não acreditavam no jornalismo, acreditavam no poder, na influência, e queriam que eu pusesse o jornal não ao serviço dos interesses dos leitores, mas sim dos interesses dos poderes econômico e político. Porque são parte desse establishment e no mundo em que se movimentam a verdade é secundária. Era muito mais importante saber como podiam conseguir que o jornal lhes desse, a eles, uma posição melhor dentro do establishment. Aí, quando eles encontram um diretor de jornal que não quer participar nesse jogo, eliminam-no. É bom recordar que no El Mundo houve quatro diretores que foram despedidos em três anos e meio. A mim despediram-me ao fim de um ano. Não se pode pensar que isso foi uma casualidade. Foi parte de uma conspiração para tentar subjugar um jornal que tinha sido o mais incômodo com o poder durante cerca de 30 anos. Pedro J. Ramírez, o fundador do El Mundo, foi também, à sua maneira, um político. Sim, é aquilo a que eu chamo no livro jornalistas-ministros, que é uma espécie muito comum na Espanha, em que se é metade jornalista, metade político. São jornalistas que não se satisfazem com informar, querem nomear ministros, influir na política, estar nas reuniões onde se decidem os destinos do país. Penso que isso fez muito mal à profissão porque a imagem de neutralidade e independência perdeu-se. Mas também é preciso reconhecer a J. Ramírez que os grandes escândalos de corrupção da democracia espanhola foram publicados no El Mundo sob a sua direção. O que aconteceu foi que ele, pouco a pouco, foi degenerando e foi obtendo mais poder e mais influência, e creio que perdeu de vista os princípios básicos.

E Atocha foi o golpe fatal, quando o El Mundo embarcou na versão de Aznar de que teria sido um ataque da ETA? Foi o grande desastre. Eu, no livro, chamo-lhe o maior erro na história do jornal porque fomos contaminados e durante anos assumimos que esses atentados tinham sido uma conspiração. Tudo por motivações políticas porque, afinal, era um argumento que caía bem ao governo conservador do Partido Popular. Ainda hoje, os precursores dessa teoria da conspiração não pediram desculpa, apesar do mal que causaram às famílias das vítimas, apesar de nunca se ter demonstrado que houve essa conspiração, e de haver uma sentença judicial que condenou terroristas islâmicos. Quando pensa na comunicação social agora, depois desta experiência, quem pensa que tem mais culpa na crise? Será uma crise autoinfligida, serão os jornalistas, os gestores, as plataformas ou os leitores? É uma mistura de responsabilidades. Temos os gananciosos que pensarão no jornalismo só para fazer dinheiro, temos o poder econômico e o poder político que querem a fragilidade da imprensa. Temos os leitores sectários que esperam de um jornal que reafirme as suas ideias e que não estão dispostos a aceitar verdades incômodas. Mas quando escrevi o livro acrescentei uma responsabilidade que para mim é fundamental: os próprios jornalistas. Para mim, teria sido muito mais fácil escrever o livro deixando de fora os meus colegas, ter-me-ia poupado a críticas e a aborrecimentos. Mas creio que teria sido hipócrita da minha parte. É o que já dissemos antes: a resistência à mudança. Nas redações eram muito importantes as batalhas internas. E creio que fomos cobardes quando as redações dos nossos jornais estavam a ser desmanteladas, e todos nos calávamos porque queríamos salvar o nosso posto de trabalho. No final, como quase sempre, não há apenas um responsável, mas sim muitos, e a única coisa que podemos fazer, olhando para trás, é falar francamente do que aconteceu, e isso foi o que eu tentei com El Director. E pelo que vê agora, há alguma evolução ou está tudo na mesma? Comecei a receber centenas de mensagens de toda a Espanha a denunciar situações de corrupção, abusos e ligações ao poder em jornais, rádios e televisões. Isso levou-me a pensar que a situação ainda estava pior do que eu conto em El Director. E que a solução é muito, muito difícil. Há um sistema muito instalado em pequenas autarquias, em governos regionais, no governo central com empresas locais ou nacionais, uma ligação da imprensa ao poder econômico e político que vai ser muito difícil de quebrar. Talvez contar como funciona o sistema seja um primeiro passo para poder mudar. Uma das coisas que mais me emocionaram com o livro foi ver como muitos jovens jornalistas e jovens que estudam na universidade reagiram ao livro dizendo: “Agora que sabemos como funciona a realidade, vai ser a nossa vez de a mudar.” Isso acontece também nos novos media, os digitais? Há pessoas a tentar fazer as coisas de maneira diferente. Mas já falamos de uma coisa fundamental: muitas vezes está-se a sacrificar a independência ideológica e informativa em troca de se ter independência dos poderes. No final acaba-se por não se ser de todo livre se, em vez de se depender de uma grande empresa e de um público, se acabar a depender de um assinante que só aceita aquela verdade que se adapta ao que já pensa. Eu gostaria que a Espanha adotasse princípios de independência jornalística como têm os grandes jornais do mundo. Porque não podemos ter um The New York Times em Espanha ou uma Der Spiegel? Muitas vezes o nosso êxito depende de sermos suficientemente militantes de um flanco para atrair as pessoas que estão desse lado. Os tempos não estão para isso, porque tudo está mais polarizado do que nunca. Tudo está mais polarizado por isso há pessoas que me dizem que o jornal que eu queria fazer era uma loucura romântica, que eu era correspondente e vinha influenciado pelo jornalismo de correspondente. O lado mais romântico do jornalismo é não ter de pensar em gabinetes e em política, e tratei de aplicar esse idealismo a um lugar que é muito político, muito complicado. Mas penso que continuarei a tentar porque o jornalismo consiste nisso, não é? Acredita no jornalismo? Continuo a acreditar. A reação ao livro disse-me que há muita gente —mais do que nós pensamos— que quer que alguém faça um jornalismo como eu tentei fazer no El Mundo. Gosto muito de uma frase de Bacon: “Não há comparação entre o que se perde por fracassar e o que se perde por não tentar.” Há que tentar uma e outra vez. O que é que está a fazer agora? Escrevo uma coluna na edição do The New York Times em espanhol, estou já a pensar no livro seguinte e já há um acordo para o publicar. Participo em tertúlias políticas na rádio e na televisão. Faço assessoria em meios de transformação digital para jornais na América Latina. Há mais gente do que nós imaginamos que aprecia os jornalistas que ainda estão dispostos a contar a verdade. Ainda tem planos para fazer esse jornal de sonho? Há o entusiasmo das pessoas que me dizem para fazermos o “El Normal” – um jornal que pudesse ser independente, honesto, ter os eleitores como único interesse. Deveria ser o normal. Voltar à decência. Por isso pensamos que um dia temos de fundar um jornal “normal”, e esse é um dos projetos que estou a estudar com outros colegas, e isso é uma possibilidade. Porque, como dizia no princípio da entrevista, creio que há um espaço em Espanha para um jornal independente, que não esteja em nenhuma trincheira. Claro que há gente que diz que é uma loucura. A mim parece-me uma coisa óbvia do jornalismo, tratar de contar a verdade às pessoas. Não sei porque é que isso se transformou agora em algo utópico, quando é uma coisa absolutamente normal para quem se dedica à profissão de jornalista.

FONTE:

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/08/a-tendencia-natural-do-poder-e-controlar-a-imprensa-diz-jornalista-espanhol.shtml

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